terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Andre Vltchek: Como o Ocidente está manufaturando o terrorismo islâmico

Cem anos atrás, seria inimaginável que um par de homens muçulmanos entrasse em um café ou num veículo de transporte público e se explodisse, matando dezenas de pessoas. Ou que cometesse o massacre da equipe de uma revista satírica em Paris! Coisas como estas simplesmente não aconteciam.

Quando você lê as memórias de Edward Said, ou conversa com homens e mulheres de Jerusalem oriental, fica claro que a maior parte da sociedade palestina era absolutamente secular e moderada. Estava mais preocupada com a vida, a cultura, mesmo com a moda do que com dogmas religiosos.

O mesmo pode ser dito sobre muitas outras sociedades muçulmanas, inclusive as da Síria, Iraque, Irã, Egito e Indonesia. Fotos antigas falam por si. Por isso é importante estudar imagens antigas de novo, cuidadosamente.

O islã não é apenas uma religião; é também uma enorme cultura, uma das maiores do planeta, que enriqueceu nossa humanidade com conquistas científicas e arquitetônicas e com muitas descobertas no campo da medicina.

Os muçulmanos escreveram poesia deslumbrante e compuseram linda música. Mas, acima de tudo, desenvolveram algumas das primeiras estruturas sociais do mundo, inclusive enormes hospitais públicos e as primeiras universidades, como a de al-Qarawiyyin em Fez, no Marrocos.

A ideia do “social” era natural para muitos políticos muçulmanos e, se o Ocidente não tivesse interferido brutalmente, ao derrubar governos de esquerda para colocar no trono aliados fascistas de Londres, Washington e Paris, quase todos os países muçulmanos, inclusive o Irã, o Egito e Indonésia, provavelmente seriam socialistas, sob um grupo moderado de líderes seculares.

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No passado, muitos líderes muçulmanos se levantaram contra o controle do mundo pelo Ocidente e figuras enormes como o presidente indonesio Ahmet Sukarno, foram próximos aos partidos e ideologias comunistas. Sukarno até forjou um movimento antiimperialista global, o Movimento dos Não-Alinhados, que ficou claramente definido durante a Conferência de Bandung, na Indonesia, em 1955.

Isso contrastava com as elites conservadoras e cristãs, que se sentiam em casa com governantes fascistas e colonialistas, com reis, comerciantes e oligarcas dos grandes negócios.

Para o Império, a existência e a popularidade de governantes muçulmanos progressistas e marxistas governando os países do Oriente Médio ou ricos em recursos como a Indonesia eram claramente inaceitáveis.

Se eles pretendiam usar a riqueza natural para melhorar a vida de seus povos, o que sobraria para o Império e suas corporações? Isso tinha de ser desfeito por todos os meios. O islã tinha de ser dividido, infiltrado com radicais e classes anti-comunistas e por aqueles que não se importavam com o bem estar de seus povos.

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Quase todos os movimentos radicais do islã de hoje, em qualquer parte do mundo, são ligados ao wahhabismo, uma seita ultraconservadora e reacionária do islã que está no controle da vida política da Arábia Saudita, do Qatar e de outros grandes aliados do Ocidente no Golfo.

Citando o Dr. Abdullah Mohammad Sindi:
“Está muito claro pelos dados históricos que sem apoio britânico nem o wahhabismo nem a Casa de Saud existiriam hoje. O wahhabismo é um movimento fundamentalista do islã inspirado pelos britânicos. Através de sua defesa da Casa de Saud, os Estados Unidos apoiam o wahhabismo direta e indiretamente, apesar dos ataques terroristas do 11 de setembro de 2001. O wahhabismo é violento, direitista, rígido, extremista, reacionário, sexista e intolerante…”

O Ocidente deu apoio total aos wahhabis nos anos 80. Eles foram empregados, financiados e armados depois que a União Soviética foi tragada no Afeganistão, na guerra civil que durou de 1979 a 1989. Como resultado da guerra, a União Soviética entrou em colapso, exausta econômica e psicologicamente.

Os Mujahedeen, que lutaram tanto contra os soviéticos contra o governo esquerdista em Cabul, foram encorajados e financiados pelo Ocidente e seus aliados. Vieram de todos os cantos do mundo islâmico para lugar a “Guerra Santa” contra os infiéis comunistas.

De acordo com os arquivos do Departamento de Estado:
“Contingentes dos assim chamados árabes afegãos e guerrilheiros estrangeiros desejavam mover a jihad contra os ateus comunistas. Notáveis entre eles era um jovem saudita de nome Osama bin Laden, cujo grupo eventualmente se tornou a al-Qaeda”.

Grupos radicais islâmicos, criados e injetados em vários países muçulmanos pelo Ocidente incluem a al-Qaeda, mas também, mais recentemente, o ISIS (também conhecido como ISIL). O ISIS é um exército extremista nascido nos campos de refugiados nas fronteiras entre Síria-Turquia e Síria-Jordânia, que foi financiado pela OTAN e pelo Ocidente para lutar contra o governo (secular) de Bashar al-Assad, na Síria.

Tais implantes radicais servem a vários objetivos. O Ocidente os usar para lutar suas guerras contra inimigos — países que ainda estão no caminho da completa dominação do mundo pelo Império. Depois, mais tarde, quando estes exércitos extremistas “fogem completamente do controle” (como sempre acontece), eles servem como espantalhos para justificar a “Guerra contra o Terror” ou, como o ISIS em Mosul, como desculpa para reengajamento de tropas ocidentais no Iraque.

Notícias sobre grupos radicais muçulmanos são constantemente divulgadas na primeira página de jornais, em capas de revistas ou mostradas nos monitores de TV, para lembrar às pessoas “como o mundo é perigoso”, “como o engajamento do Ocidente é importante” e, consequentemente, como é importante a vigilância, como são indispensáveis as medidas de segurança, assim como os tremendos orçamentos de defesa e as guerras contra estados bandidos.

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Nas últimas cinco décadas, cerca de 10 milhões de muçulmanos foram assassinados porque seus países não serviram ao Império, não serviram suficientemente ou eram obstáculos no caminho.

As vítimas foram indonesios, iraquianos, argelinos, afegãos, paquistaneses, iranianos, iemenitas, libaneses, egípcios e cidadãos do Mali, da Somalia, do Bahrein e outros.

O Ocidente identificou os monstros mais horríveis, jogou bilhões de dólares, deu armas e treinamento a eles e os soltou por aí.

Os países que promovem o terrorismo, Arábia Saudita e Qatar, são aliados dos mais próximos do Ocidente e nunca foram punidos por exportar o horror para todo o mundo muçulmano.

Movimentos sociais, como o Hezbollah, que está engajado em combate mortal contra o ISIS — mas que também galvanizou o Líbano em sua luta contra a invasão de Israel — estão na lista de “terroristas” compilada pelo Ocidente. Isso explica muito, se alguém se dispuser a prestar atenção.

Olhando a partir do Oriente Médio, parece que o Ocidente, como durante as cruzadas, visa a destruição absoluta dos países e da cultura muçulmanos.

Quando à religião islâmica, o Império aceita apenas as formas amigáveis — aquelas que aceitam o capitalismo extremista e a dominação global pelo Ocidente.

O único tipo tolerável de islã é aquele manufaturado pelo próprio Ocidente e seus aliados do Golfo — desenhado para lutar contra o progresso e a justiça sociais: aquele que devora seu próprio povo.

(ANDRE VLTCHEK*, no Counterpunch\Viomundo)

*É novelista, cineasta e jornalista investigativo.


PS do Viomundo: Governos seculares derrubados recentemente pelo Ocidente incluem Afeganistão, Iraque e Líbia, sem falar na Síria.

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